A máquina de lavar roupas

Aquele era um dia quente de janeiro, sem nem uma brisa e sufocante. O sol estava a pino e os termômetros da cidade chegaram a registrar a marca de 37°. As ruas vazias ferviam. A desolação de janeiro. Nenhuma alma poderia ser vista naquelas condições, e, como em um culto religioso bizarro, todos os cidadãos se recolheram para os interiores frescos de suas casas, onde cultuavam extasiadas, e em segredo, o ar-condicionado.

Mas nem todos tinham a sorte de possuir tal conforto. Algumas famílias apelavam para a compra excessiva de ventiladores, três poderiam dar conta do recado durante esse verão, talvez quatro ou cinco no próximo, ou quem sabe até lá não teriam inventado algo mais eficaz que o ar-condicionado, assim ele ficaria acessível a todos – ou quase todos.

Contudo, o futuro de tais aparelhos eletrodomésticos era uma discussão de pouca relevância, quando a sensação térmica subia para mais de 50°. Jesus! não é essa a sensação térmica do Saara?

Bem, para os Corrêa, o problema dos ventiladores estava quase resolvido, já que mais cedo naquele dia Carlos Corrêa saíra em busca de alguns. Em poucas horas, os Corrêa fariam parte do grupo de adoradores de ventiladores.

Joana ficara em casa com o Lucas. Hoje era dia de limpeza, e aquela casa parecia uma zona de guerra, com poeira e roupa suja para todos os lados.

Ela percorria cômodo a cômodo segurando uma bacia vermelha apoiada na cintura e ia pegando com a outra mão as meias e camisas sujas espalhadas entre sofás, atrás e embaixo de camas e, até mesmo, em cima dos guarda-roupas. Ela já havia terminado de recolher quase tudo quando percebeu que faltava apenas um lugar que ainda não havia checado.

O quarto de Lucas. E o caos verdadeiro a esperava.

A porta do quarto estava fechada, como sempre. Nenhuma luz escapava pelas frestas, o que significava que ele teria voltado a dormir após o almoço. Mas tudo bem, crianças de cinco anos caíam mortas de sono a todo instante e em qualquer lugar que julgassem apropriado.

Ela segurou a maçaneta, e, sentindo uma pontada de tristeza, abriu a porta. O quarto estava escuro e fresco, agradável até de mais em comparação com o restante da casa. As portas dos armários estavam fechadas e tudo parecia em ordem. Sobre a escrivaninha uma pilha de folhas de caderno arrancadas com desenhos de super-heróis estava ao lado de uma pilha de histórias em quadrinho e alguns bonecos do Max Steel. Os tênis estavam alinhados ao pé da cama, junto com um pequenino par de sandálias do Ben 10. Num dos cantos do quarto, ao lado do baú de brinquedos, uma pilha de roupas se amontoava acanhada, destoando da organização incomum do restante do quarto.

Joana sorriu como se já soubesse que aquilo a aguardava ali, mas estranhou o fato de o filho não estar dormindo na cama.

Mãããe – o grito infantil subiu as escadas vindo da sala- Podemos montar a piscina hoje, tá muito queeeente!Joana deu um pulo e se sentiu envergonhada por estar ali, pega de surpresa como se estivesse fazendo algo errado.

Mas que besteira! Era o quarto de seu filho e não o de um estranho.

Ela apanhou a pilha de roupas do filho, e gritou a resposta dali mesmo:

– Peça a seu pai quando ele chegar, tenho muitas coisas pra arrumar aqui em casa hoje – e em resposta ao suspiro de chateação do filho, acrescentou – você pode pegar um pouco de sorvete no freezer, se quiser.

Ebaaa. Foi tudo o que ele disse.

Ela sabia que a alegria dele duraria até o sorvete acabar e então o calor voltaria. Mas, com sorte, Carlos já teria voltado e traria pelo menos um bom ventilador debaixo do braço.

Joana foi até a lavanderia, passando pela cozinha encontrou a porta da geladeira aberta e um pote de sorvete de flocos em cima da mesa, sob a tampa vermelha com pedaços derretidos de sorvete e chocolate uma poça d’água já se formara.

– É muito difícil guardar de volta no lugar o que você tirou do freezer, Lucas Corrêa? ela tentou fazer sua melhor voz de repreensão, para parecer que estava brava, mas sabia que não era tão convincente quanto sua mãe, ou sua avó – que Deus as tenha.

Besgulbaa bããe! o menino respondeu com a boca cheia de sorvete.

Joana soltou uma risadinha de divertimento. Ficava irritadíssima quanto Carlos deixava a manteiga em cima da mesa em dias quentes, e quando ela ia passar um pouco no pão encontrava uma sopa amarelada e oleosa. Mas com Lucas era diferente, ele tinha só cinco anos e já era igualzinho o pai, como uma versão em miniatura dele, só que sem o cheiro de cigarro e com bochechas gordas e rosadas que eram uma delícia de apertar. Era impossível ficar brava com aquele pestinha.

De volta às tarefas, ela separou as roupas por cor em duas pilhas: roupas coloridas e escuras, de um lado e brancas, de outro. Lavaria primeiro as peças brancas: toalhas, cuecas, calcinhas, meias, lençóis e umas poucas camisas, depois seria a vez das coloridas.

Após ajustar a máquina, Joana percebeu que deveria estar fazendo uns 60 graus ali fora. Sua camisa rosa estava completamente ensopada e pingando, mas ela não lembrava de ter se molhado. O ar estava pesado e o suor escorria pelo seu rosto. Ela olhou ao redor e viu o chão de concreto do quintal e da garagem ao lado ferverem sob aquele sol impiedoso. O portão de ferro parecia com uma enorme frigideira cor de creme. Pela primeira vez em anos, Joana sentiu-se fraca. Estava suando frio, suas mãos tremiam como as de uma senhora senil e suas pernas eram como varas de bambu que pareciam não aguentar muito mais seu peso.

Uma sombra passou pelo quintal, vermelha e azul, com um boné do São Paulo na cabeça. Na camisa vermelha, uma enorme mancha de sorvete de flocos.

Mããããe! posso montar a piscina? Lucas trazia ao lado do corpo pequeno o grande saco de plástico com a piscina azul de mil e duzentos litros dobrada dentro – eu lembro como papai montou da última vez, posso tentaaaar? deixa, por favor, tá muito queeeente!

O mundo parecia ficar distante, as pontas de seus dedos formigavam e ela parecia assustadoramente leve. Em breve desmaiaria.

– Lucas, mamãe não está se sentindo muito bem – ela disse, tentando soar o mais normal possível – por favor, deixe essa piscina aí e venha para dentro, você… pode peg.. pode pegar uma insolação… entre já…

Mas mããããe…

– Agora, Lucas… eu tô mandando!

E isso foi tudo o que ela conseguiu dizer antes de apagar com metade do corpo no chão da cozinha e a outra metade na lavanderia. O piso frio até que fora bem vindo naquele momento, mas em seguida ela não se lembraria de mais nada.

 

2

 

No sonho ela caminhava pelos cômodos escuros de sua antiga casa, em outra cidade. Todos os móveis e eletrodomésticos estavam fora das caixas, os quadros e fotos da família ainda estavam pendurados nas paredes brancas, os pratos, talheres e copos estavam todos guardados no armário, assim como os mantimentos. Tudo estava no devido lugar, como sempre estivera antes que…

Ela percebeu que estava muito frio ali, na antiga casa, no sonho, parecia até mesmo inverno. Todo o calor escaldante de janeiro se fora – e Carlos ainda não tinha voltado com os ventiladores, não que eles fossem ser necessários ali.

Joana percebeu que só podia estar sonhando, e isso a assustou.

Fazia anos desde que tivera o último sonho, depois foram só pesadelos, pesadelos com as contas da casa, com o emprego do marido, com os vícios do irmão mais velho, com as idas da mãe ao hospital cada vez mais frequentes

mais cedo ou mais tarde ela vai acabar abotoando o paletó… você sabe, isso não é normal para uma senhora de idade

Ela tinha lhe dado um tapa na cara naquele dia, nada lhe dava o direito de falar daquele jeito de mamãe, sua mãe, apesar de todos os problemas que ela tivera em vida. Mas aquele era o jeito de seu irmão mais novo, sempre pensando só no próprio umbigo e naquelas mulheres vulgares que ele levava em casa nos jantares de domingo. E mamãe nunca reclamaria delas na frente de Jefferson, claro que não, sempre foi o favorito.

Tinha também que tomar conta do filho.

A lembrança dentro do sonho causou-lhe calafrios por todo o corpo. Era como se estivesse muito próxima de alguma coisa que evitava há anos, um peso invisível se avultava sobre seus ombros.

Ela continuou andando pela casa antiga, como se realmente estivesse lá. As paredes pareciam tão iguais, as fotos, Lucas e Carlos juntos, no Morumbi. Tudo era tão real que por um instante acreditou que tivesse voltado no tempo, e em algum lugar perdido dentro de si ela sentiu uma pontada de dor. Ou aquilo era esperança? Mas e se fosse, seria esperança de quê? De se ver livre das contas e das dívidas? Do banco parar de ligar em sua casa dia sim dia não? Ou esperança de que o marido conseguisse um emprego melhor, que pudesse ganhar o bastante para poder levá-los a uma maravilhosa viagem ao sul friorento?

“Esperança de não ter mais que lavar roupas…”, sugeriu uma voz em sua cabeça.

Ela soltou um riso escarnecedor e amargo diante a sugestão do estranho, mas então as memórias a acertaram como um soco no estômago e o sorriso morreu em seus lábios roxos.

A máquina de lavar roupas. Por Deus, como ela queria poder se livrar daquilo, mais do que tudo em sua vida. Aquele retângulo azul claro, com bordas e tampa de metal cromado, de um metro e quarenta e quinze toneladas na lavanderia de sua casa era, definitivamente, o câncer que sua sogra lhe deixara. Se ela não morrera por conta de um, ali definitivamente estava o que lhe pertencera. A grande caixa de metal, que na mente de Joana muito se assemelhava a um caixão.

“Aquela coisa vai acabar me matando um dia… eu tenho certeza…”, pensou em dizer a Carlos, assim eles poderiam se livrar daquela maldição e comprar uma novinha em folha, quem sabe até mesmo uma Brastemp. Era um bom pensamento para se ter, o de uma lavadora que não fizesse o escândalo que aquela máquina dos diabos fazia, mas ela sabia que em nada adiantaria

CA-TCHUM-CA-TCHUM-CA-TCHUM!

“Por Deus, ela está lavando minhas roupas ou moendo o cadáver de um cachorro?”, dissera a Carlos quando a usaram pela primeira vez, logo após terminar de colocar os móveis no lugar e abrir todas as caixas da mudança. Ele deu de ombros e voltou a comer sua maçã. Convivera com o Trambolho Moedor de Cães a vida toda, não era tão ruim assim.

Mas para Joana aquele ruído era terrível , depois vinha os gorgolejos engasgados da mangueira que regurgitava a água cinzenta no pequeno tanquinho e, então, o pesadelo começava de verdade. A etapa de centrifugação, quando o cesto interior da máquina girava com tamanha velocidade que, por vezes, fazia com que ela saísse de sua área, uma plataforma elevada de concreto ao lado do tanque, e caminhasse desenfreada pelo quintal, ou como acontecera algumas vezes, para dentro da cozinha. Aquela coisa ou tinha vida própria ou estava possuída pela espírito vingativo de sua sogra. Ela estava inclinada a acreditar na segunda opção.

Após aquele dia, Joana quis imediatamente jogá-la fora, mas Carlos estava disposto a manter o Trambolho Moedor de Cães como parte das boas lembranças de sua infância.

Lavar roupas pouco a pouco passou a ser uma tortura.

“Você vai acabar se acostumando… eu me acostumei!”

Joana nunca se acostumaria. Enquanto olhava para a máquina de lavar, ela soube que jamais se acostumaria com aquilo. Definitivamente, aquilo se parecia MUITO com o caixão de sua sogra.

Olhando para ela agora, em sua antiga base de concreto, ela se parecia mais como um artefato histórico local que estivera ali desde a construção da casa – ou até mesmo antes – do que na casa nova, onde estava deslocada e ocupava muito espaço.

Mamãeeeeee, posso montar a pisciiiiina? – a voz de Lucas vinha lá de fora, do quintal – eu tô com muito caloooor.

Ela abriu a boca para responder, mas um ruído familiar a interrompeu.

Eu já disse que não, moleque! Guarda isso. Se eu for até aí você vai se arrepender, eu tô falando!”

O estalo metálico veio da máquina, como quando ela terminava de lavar as roupas e começava a…

– Mas tá calor, e o papai sempre monta quando tá calor – até mesmo a teimosia tinha puxado do pai, e isso fazia sua cabeça doer – eu prometo que não vou fazer bagunça.

Eu também tô com calor, mas não tô chorando pela porra do quintal enchendo o saco de ninguém, agora guarda essa merda antes que eu te arrebente!

Água cinzenta começou a fluir pela mangueira nos azulejos brancos do tanque. Joana notou que o fluxo ia aos poucos passando do cinza para um rosa escuro, uma cor de vinho, só que mais espesso, até se parecer muito com groselha. Era sangue. Tufos emaranhados de cabelo preto voaram pela mangueira e então a máquina parou de cuspir a água.

Lucas estava chorando. Joana nunca falaria assim com ele. Nunca! Aquele, de longe, era o pior pesadelo que tinha em anos.

O Trambolho Moedor de Cães iniciou o processo de centrifugação, e aquele barulho de turbina de avião pronto para decolar ficava cada vez mais alto. Ela girava cada vez mais rápido e o que quer que fosse que estava ali dentro fazia um som molhado e esponjoso que deixou o estômago de Joana embrulhado.

A máquina chacoalhava freneticamente em sua base, soltando ruídos estridentes e de metal contorcido como se estivesse pronta para cair aos pedaços no chão.

Aquilo seria um alívio. Mas não aconteceu.

Com um estampido, a tampa explodiu e voou pelo quintal. Pela abertura escura da máquina, de onde vinha os ruídos de algo vivo sendo moído, sangue jorrou, escuro e espesso.

Você quer uma piscina? Eu vou te arranjar uma!

O grito de Joana ficou entalado na garganta, assim como os tufos de cabelo na mangueira. A máquina avançou em sua direção, ainda rugindo como algum monstro saído de um filme trash e por um instante ela acreditou que veria dois pares de asas púrpuras erguerem-se contra o teto mofado da lavanderia, seguidas pelo próprio diabo, ele a levaria para o inferno, onde era o lugar para onde pessoas como ela iriam… mas ela não conseguia se lembrar o porquê.

Ao invés de asas, dois braços pequeninos saíram de dentro da máquina de lavar roupa, a pele estava inchada e coberta de bolhas, algumas haviam estourada e um líquido preto de odor azedo escorria. As mãos estavam abertas e estendiam-se em sua direção, como se estivessem esperando por um abraço. Os dedos estavam podres e quebrados, e na mão direita o mindinho esquerdo havia desaparecido, agora havia apenas um osso branco partido ao meio despontando pela carne esbranquiçada e em frangalhos, como guardanapo picado.

O sangue escuro que jorrava pela máquina formou uma poça no chão, que se estendia vagarosa em sua direção, assim como a máquina. Ela sentiu o líquido viscoso escorrer por entre os dedos quando uma das mãos agarrou sua blusa rosa e a puxou para baixo. O desespero subiu pela garganta de Joana quando ela encarou os olhos azuis e frios que brotavam do interior da máquina como os botões da camisa de trabalho de Carlos.

Então ela gritou.

 

3

 

Ela acordou com o rosto colado no chão frio da cozinha. Ainda suava, mas grande parte do que tinha se acumulado em sua camiseta secara. Um único fio de baba escorrera de sua boca e formara uma pequena poça no chão. O gosto em sua boca era amargo, e trouxe de volta a memória os dias de sua infância, quando pegava as moedas de cinco e dez centavos do pai e as colocava na boca.

Gosto de chupar moedinhas.

Talvez ela tivesse mordido a bochecha na queda. Mas ainda assim ela sentiu que algo com que sonhara enquanto estivera desacordada estava preste a pular diante de seus olhos, como o monstro de um daqueles filmes de terror em que o susto é previsível e você acaba caindo de qualquer jeito e depois ri com nervosismo de sua própria covardia.

O lado direito do rosto doía, e sua cabeça girou quando ela tentou ficar em pé. Mas para o azar de Joana, ela desmaiara em cima da perna esquerda, completamente imóvel agora. E ela ficaria assim por algum tempo.

Ela tentou colocar as memórias no lugar, o que fazia antes de cair ali no chão da cozinha, por que tinha caído, onde estava Carlos com os malditos ventiladores e onde estava Lucas que não tinha vindo prestar socorro à mãe que quase morrera com um traumatismo craniano?

Joana sentiu uma pontada de tristeza ao pensar que nem mesmo seu filho único se importaria se ela desmaiasse no chão da cozinha e ficasse por ali mesmo, quanto tempo? meia hora? Uma, duas horas? Quem liga?

Ela sentou e levou a mão ao lado direito do rosto. Um galo despontava em cima de sua sobrancelha como o Pão de Açúcar.

– Aí! sibilou ao tocar o calombo na testa.

Ela olhou ao redor. A pia se assomava diante de si, em mármore preto que brilhava com um único fio de luz que passava pelo teto da lavanderia. Atrás de si estava a geladeira, branca e imensa. Do seu lado esquerdo estava a mesa e as cadeiras.

“Eu podia mesmo ter morrido se tivesse batido a cabeça na quina…” ela pensou.

E então se deu conta de que o pote de sorvete de flocos não estava mais em cima da mesa, na verdade, não havia nem sinal de que ele estivera ali.

“Ele guardou o pote no lugar, e sequer parou para me olhar, para ver se eu estava bem… ou… viva!”, o pensamento de que o filho de apenas cinco anos não se importava com a mãe deixou seus olhos marejados. Era tudo culpa dela, daquela velha escrota e o Trambolho Moedor de Cães, que vivia dizendo ao filhinho querido que ele abrisse o olho, se não aquelazinha ia tomar de você a casa, os filhos e tudo o que tinha direito e antes que você pudesse dizer seu nome completo ela já estaria com um canalha da laia dela.

“Laia dela?”, ela ouviu o marido perguntar. Tinha acabado de entrar no banheiro, após o almoço de domingo, na casa da sogra – quando fora aquilo? uns cinco ou seis anos atrás? -, mas dali ela conseguia ouvir muito bem o que a sogra e o filho discutiam.

“É, você sabe muito bem que tipo de laia eu to falando…”

“Não, mãe, por favor, me diga”

“Por favor, Carlos, não!”, ela lembra de ter pensado.

“De puta!” disse a sogra num chiado que soou como o silvo de uma cascavel.

Eles demorariam pelo menos onze meses até colocar os pés novamente naquela casa. Joana sempre perguntava ao marido se tinha acontecido algo, embora ela soubesse bem o que era, mas nunca compartilhara com ele. Não queria ficar com fama de bisbilhoteira. Carlos sempre inventava uma desculpa. O carro precisa ser lavado, levado ao mecânico, futebol com os amigos, compras, cinema, comprar um maço de cigarros na padaria e voltar duas horas depois dizendo que a fila era um absurdo que dava a volta no quarteirão. Joana nunca se incomodou com as desculpas do marido, não sentia falta nenhuma da sogra.

Usando uma cadeira como apoio, Joana tentou ficar de pé. Quase caiu a princípio, e teria feita uma contusão talvez mais grave, mas conseguiu se apoiar na mesa e na perna direta. A esquerda formigava como se mil agulhar entrasse e saíssem, mas a sensibilidade aos poucos voltava.

– Lucas! Lucas, onde você está? – ela perguntou, mas não obteve resposta.

Então ela olhou para a lavanderia e para o mormaço que tomava conta do mundo lá fora, sem nem uma brisa sequer.

A máquina de lavar estava ali, a tinta azul começava a descascar por conta da ferrugem na parte de baixo, como se o Trambolho Moedor de Cães estivesse com uma lepra de eletrodomésticos. As bordas cromadas brilhavam como uma centena de sóis, lançando reflexos para todos os lados. Joana teve de cobrir os olhos para não se cegar com o brilho. A tampa estava fechada e a mangueira dentro do tanque.

Uma lembrança ruim pulou na sua memória, como um mosquito no para-brisas de um carro, mas logo foi esmagada e virou um borrão escuro e disforme. Ela sabia que algo ruim cercava aquela máquina, algo ruim que viera de sua sogra, ela mexia com essas coisas, por que não?

Lembrou-se de sangue, do rugido infernal que ela fazia quando começava a centrifugar e o pesadelo ambulante que virava quando estava muito pesada – como se nunca estivesse. Mas ainda faltava algo, algo que Joana tivera apagado de sua mente consciente, mas que ainda a atormentava todas as noites em terríveis pesadelos. Felizmente, ela nunca se lembrou de nenhum deles quando acordava, ficava apenas com a sensação de que estava se esquecendo de algo muito importante, como o final de um bom livro que lera na época do ensino médio, e uma leve dor de cabeça que desaparecia por completo após o café da manhã.

Joana foi surpreendida de seus pensamentos quando um clique metálico soou vindo da lavanderia.

Mamãããe. chorou Lucas – está muito queeeente hoje, por favor, deixa eu montar a piscina… papai vai demoraaaaar.

Uma onda de arrepios subiu pelo tornozelo, e caminhou como uma horda de aranhas pelas pernas de Joana, até sua cintura, rasgou suas costas ao meio e eriçou os pelos de sua nuca. Algo estava errado ali, muito errado.

– L-Lucas…

A mangueira regurgitou um punhado de água cinzenta, e, junto com a água, talvez um ou dois tufos de cabelo negro.

– Ó Deus, por favor, não, por favor, Deus…

A água que começou a jorrar era cinza, mas aos poucos passou de uma tonalidade rosada para uma corte forte de vinho, mas com consistência de groselha.

– Meu bom Jesus, do céu, pai amado…

Estava tão quente, mamãe – a voz de Lucas soou desafinada e estrangulada, como se ele não fosse mais uma criança de cinco anos de idade, mas sim estivesse no auge da adolescência – eu só queria ter montado a piscina…

Sangue escuro e mais cabelos embaraçados saiam pela mangueira, até que ouviu-se novamente aquele estampido metálico.

Joana achou que suas pernas não aguentaria muito tempo, e logo o chão subiria novamente para beijar seu rosto, dessa vez seria a outra face e tudo ficaria simétrico.

O Trambolho Moedor de Cães ligou as turbinas e preparou-se para voo, cada vez mais rápido, cada vez mais com um som que lembrava o choro de uma criança.

– O que foi que eu fiz? ela chorou, levando as duas mãos ao rosto vermelho e inchado de um lado.

A caminhada havia começado, a máquina saíra de sua base de concreto e agora avançava atabalhoadamente em sua direção, para o interior fresco da cozinha. O fio soltou-se da tomada com um puxão, mas o eletrodoméstico possesso continuou sua marcha, agora regurgitando sangue, tingindo o mármore preto da pia, a geladeira branca, o piso de azulejos cor de rosa, as cadeiras, a mesa, os armários e Joana.

Ela gritou, e gritou até sentir que seu pulmão iria explodir – o que de fato não demoraria a acontecer.

eu só queria um pouco de água para aliviar o calor, mamãe…

A tampa se abriu e de lá de dentro dois braços cadavéricos se esticaram a agarraram os ombros de Joana. As mãos eram como garras – e Joana notou que o mindinho de uma havia desaparecido – os dedos afundaram em sua carne e a puxaram para perto da boca do inferno, escura e molhada, ainda girando e girando. Os gritos de uma criança ecoavam de algum lugar do fundo daquele poço fundo de desesperos, os gritos opressores de ódio de um espírito inconformado com o descaso, o terror de uma família destruída.

Saia daí, mamãe, está muito quente, aqui é fresco e úmido… tem bastante água.

Os gorgolejos de alguém tentando desesperadamente sorver um último fôlego vinha lá do fundo, enquanto o interior girava e a estrutura de metal enferrujado sacolejava furiosa.

Vem ficar comigo… eu sinto tanto sua falta…

Joana se apoiou nas bordas de metal cromado e suas mãos escorregaram no sangue que jorrava do abismo. Relutante, ela forçou-se a olhar para o poço de onde emergiam os gritos em cacofonia, e por um breve instante seu coração parou, sua respiração morreu e ela soube que seu filho não estava ali. Ela encarou um par de olhos azuis e gélidos que a fuzilavam com ira de uma criatura abissal, de pele cinzenta dividida por inúmeros cortes. O crânio era coberto por tufos esparsos de cabelo cinzento e molhado. Sua boca estava deformava em um sorriso arreganhado de puro escárnio.

Venha para a piscina daqui de baixo, mamãe! riu o morto.

Joana não conseguia ver o resto de seu corpo, além das mãos e dos braços que a agarravam ferreamente e a trazia cada vez mais perto da boca da máquina.

Venha ficar com a gente agora, sua putinha matadora de filhos!” berrou sua sogra de algum lugar lá do fundo, o grito era mais como o som de duas pedras raspando uma na outra.

Em meio aos gritos e puxões, Joana ouviu o ranger das dobradiças enferrujadas do portão ao abrir e fechar. Carlos enfim tinha voltado para casa!

Joana apoiou a perna esquerda no corpo da máquina, e, usando todo o peso de seu corpo, ela se jogou para trás. As unhas da criatura enterrarem-se em sua carne e rasgarem seus braços e tiras profundas e vermelhas.

Ela gritou, mas deu outro pontapé no corpo da máquina, que respondeu com um rugido metálico de gongo. Então ela deus mais outro, e mais outro, e mais outro…

– Jô? veio o chamado da porta da frente de casa.

– Aqui Carlos! Na cozinha, por favor! Venha depressa! ela berrou em resposta.

Você não vai a lugar algum – sibilou a réplica crescida de Lucas – Você me jogou aqui, e depois fechou a tampa! Agora venha ficar comigo! Está quente aqui fora, mamãe!

Ela deu um último pontapé na máquina, e surpreendeu-se com a força que tinha para jogar longe aquele trambolho que pesava toneladas. Talvez porque sabia que aquele não era seu filho, e Lucas estava no quintal tentando montar a piscina. Afina, estava muuuuito quente.

A máquina caiu no chão da cozinha, em frente a pia, e Joana desabou contra a parede oposta, ao lado da porta da sala, de onde ela podia ver a varanda, o quintal e o portão mais adiante.

Do Trambolho Moedor de Cães a criatura sorria. “Não é meu filho!”. Aquilo tudo não passava de um pesadelo, um delírio de sua mente por conta da insolação.

Mas o sangue escorria farto pelas tiras vermelhas que nasciam em seus ombros e desciam quase até os pulsos – ali não passavam de arranhões esbranquiçados -, e a dor era bem real. E ainda tinha o galo latejando, e todo aquele sangue na cozinha, para todos os lados.

Daria um trabalho danado limpar tudo aquilo!

Bem, aquela não era hora para pensar nesse tipo de coisa. Joana queria apenas encontrar o filho e o marido e abraçá-los fortemente. Sim, isso seria muito bom.

E Carlos trouxera os ventiladores, o que era melhor ainda. Nada de poço dos infernos ou piscina. Nada disso, apenas a família reunida na sala, assistindo a um bom filme com os ventos frescos soprando em suas faces. Que sonho!

Era de fato um bom sonho. Depois colocaria Lucas para dormir e faria amor com Carlos, uma, duas, cem vezes! só para provar para a bruxa da sua sogra que ela podia sim fazer seu marido feliz.

Quem está na porta, mamãe? perguntou o diabo da máquina.

– Carlos? Joana chamou-o desesperada – Carlos, onde você está?

A silhueta negra de um homem se movia diante da janela retangular da porta da sala. Ele tentava abrir a fechadura, mas parecia não ter sucesso.

– O papai está aqui comigo, mamãetodos estão aqui, eu, a vovó, o papai, o vovô… e logo você também vai estar…

A mão sem o mindinho da criatura projetou-se para frente. Joana podia ver como estavam compridas e podres as suas unhas. Depois esticou a outra mão, e como uma criança que nunca aprendeu a andar, começou a rastejar. Aquele som molhado e esponjoso a acompanhava sempre que impulsionava o corpo putrefato para mais perto de Joana.

-Não! ela chorou, e se recolheu contra a parede com os joelhos protegendo o corpo – Não se aproxime! Fique longe de mim!

A fechadura da porta emitiu um som metálico, e então a maçaneta girou.

– Carlos! Joana gritou em uma última tentativa de afastar a coisa morta que agora já estava perto o bastante para agarrar seu tornozelo.

Carlos não está aqui fora, mamãe, ele está com a gente lá no fundo. Olhe bem, esse não é o papai.

Os olhos azuis da criatura prendiam seu olhar, e Joana teve medo de desviar para a porta e para quem quer que fosse que estivesse lá. E se não fosse Carlos? E se a coisa estivesse certa? Quem seria?

Mas e se não estivesse?

Aceite. disse a criatura – Ele não está aqui, ele nunca voltou da loja de ventiladores, não o meu papai, e agora ele está aqui comigo, junto com toda a família.

– Você não é real! Você não está aqui. Carlos! Onde você está?

A mão fria agarrou o tornozelo de Joana como uma garra de aço no mesmo instante em que uma sombra desceu sobre seus olhos.

Ela soltou um grito e então olhou para o estranho. Por um breve instante, quase que ínfimo, ela sabia que aquele não era seu marido, mas sim seu irmão.

– Meu Deus, Jô! o que você fez?

Ela estava caída no chão, em meio a uma poça de sangue que jorrava dos braços e dos pulsos, a pele estava branca e fria. Seus lábios se forçaram em um sorriso frágil e os olhos febris reviravam-se nas órbitas.

– Eu lavei a roupa, Carlos, eu lavei a roupa. Lucas quer montar a piscina, e eu preciso estender a roupa, mas está tão quente! tão quente…

– Meu Deus, Joana! Eu disse pra você não mexer na máquina! Eu só fui até o mercado, eu disse pra você não fazer nada que eu já voltava!

– A roupa está limpa, mas Lucas fez uma tremenda bagunça com as meias e cuecas dele, igualzinho a você – ela riu com sofreguidão e seus olhos começaram a perder o foco.

Ele passou a mão por seus cabelos brancos e quebradiços e a carregou para o sofá da sala. Joana ergueu uma mão fraca e sem vida e tocou seu rosto.

Carlos cuidava tão bem dela e do filho. Era mesmo uma mulher de sorte.

Ele está aqui embaixo com a gente, mamãe…”, a voz rasgada de seu filho afogado sussurrou em seus ouvidos, mas ele já se fora, junto com o abismo e o Trambolho Moedor de Cães.

Ela ouvia, a quilômetros de distância, a voz de um homem ao telefone conversar com alguém. Parecia muito com a voz de seu irmão, mas ele nunca iria visitá-la. Aquele foi um pensamento bobo, afinal, os encontros de final de ano propunham interação o bastante para um ano inteiro.

Joana olhou uma última vez pela janela da sala, para o quintal lá fora, ainda sob o sol de janeiro. E, aos poucos, o sono a embalou de maneira tranquila e indolor. Ela sentiu o calor se afastar de seu corpo e as dores sumirem como mágica.

Foi como mergulhar em uma piscina.

 

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Um comentário em “A máquina de lavar roupas

  1. A mãe…. tem pesadelos com eletrodomésticos…. em meio ao terror de acordar numa noite escura e fria e sentir o calor do microondas debaixo do cobertor… pesadelos! são sempre terríveis…o fio estica, desliga da tomada e a criatura continua a caminhar em tua direção, como se nunca tivesse necessitado de energia elétrica para mover-se…possuída!
    VOCÊ SERÁ UM GRANDE ESCRITOR! mas nunca um simples anagrama de táxi!

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