Parte I: redenção

“Estupro, assassinato! Está a um tiro de distância.” – Gimme shelter, The Rolling Stones

1

Respirou fundo, endireitou o ombro. Olho direito fixo na cruz centralizada em uma das latinhas de cerveja. Puxou o gatilho. A lata voou. Soltou o ar. Um buraco do tamanho de uma moeda de cinco centavos encarava o mundo como um olho negro. Havia algo de espetacular em pressionar um gatilho e ver algo explodir à distância. A calmaria que seguia o estampido era como se o mundo inteiro prendesse a respiração. Então o vento soprava. Terra molhada, cerveja e pólvora.

Aplausos. Fora um disparo incrível.

Flanagan nunca atirou, sequer tinha segurado uma arma apenas aquela de chumbinho que um dos garotos de sua rua pegou escondido do armário do pai, mas isso foi há muitos anos. Não era a mesma coisa. Desconhecia o sentimento de atirador. O sorriso, o brilho nos olhos, a expressão de alguém que conquistou o topo do mundo e voltou para dizer que a sensação é do caralho. Depois as palmas, a alegria que trespassava o corpo de todos como um relâmpago. Os elogios. Tudo isso apenas por ter pressionado um gatilho e dado uma lição naquela lata de cerveja.

Impressionante. O nome disso era sucesso. Não era uma palavra frequentemente associada ao seu nome. Claro que ouvia em diversos momentos um “muito bom, João!” e “parabéns, professor!”. Não era a mesma coisa. Nada além do protocolo social. Ser elogiado por algo que realmente impressionasse nunca lhe ocorrera. Sequer podia imaginar.

— Quer tentar? César estendia a espingarda, o sorriso de homem de sucesso ainda estampado em seu rosto. Por um instante a garganta de Flanagan ficou seca e ele não soube o que responder. Queria sentir o poder, o sucesso de fazer algo impressionante, ou evitaria o provável fracasso?   Você tá bem?

Flanagan limpou a garganta.

Ah, não, acho que não é muito o meu estilo segurar uma arma, você sabe, meus alunos já acham que eu não bato muito bem. Melhor evitar um processo seus colegas riram. Sempre riam de suas piadas. Mas não havia poder ali, ou sucesso.

César e os outros continuaram a disparar nas latinhas. Logo o calor da brincadeira daria lugar a fome, então fariam uma pausa para o almoço. Todos menos o professor Flanagan. Ele a olhava, fascinado com aquela interessante extensão do corpo humano. Como uma câmera fotográfica é a extensão do olho, um microfone é a extensão da voz, uma arma de fogo certamente era a extensão da vontade destrutiva da mente humana. Fascinante! Passou os dedos pelos nós da coronha de madeira. Sentiu a frieza do cano e um arrepio correu por seu corpo, eriçando os pelos da nuca. Assim como César fizera, ele a empunhou. Sentiu seu peso, seu poder a extensão do poder destrutivo de sua mente!

A princípio viu apenas uma mancha escura quando olhou pela luneta. Flanagan imitou a posição do amigo e tentou novamente. A cruz apareceu e o muro parecia tão próximo que com alguns poucos passos poderia tocá-lo.  Incrível! Era também como a extensão do olho humano.  Viu as latinhas caídas e seus furos. Viu as pedras, a grama verde que brilhava com a chuva recém caída de fins de março, as árvores. E ali, em meio a folhagem, Flanagan viu o ninho. Tomado por uma sensação que não experimentava há anos, um prazer que deixava sua pele fria e arrepiada, que subia lá de baixo, desde a ponta dos dedos do pé, passava pelos tornozelos, pela canela e pela batata grossa, criava um tremor espasmódico no interior do joelho, pelas coxas até, enfim, explodir em uma ardência febril nas bolas.

Ficou de pau duro apenas por segurar a arma e sentir seu potencial. Deus, aquilo soava absurdo, mas era verdade, e, acima de tudo, muito bom! Seu indicador alisou o gatilho, estava pronto para mandar pro caralho aqueles pássaros escrotos…

Ei!

Flanagan virou a espingarda com descuido, o cano apontava para a barriga de César.  

Oh ,oh, oh, calma aí, Seu Guarda, toma cuidado com isso disse o amigo com as palmas das mãos para o alto. O sorriso no rosto era sua marca registrada.

Ok, César, já entendemos que você se deu bem na vida, já pode parar. Flanagan corou, envergonhado.

Me desculpe. Acho que, no fim das contas, eu queria ter dado aquele disparo…  

Ele analisava o rosto brincalhão de César, tentando manter fixo seu olhar. Não queria ser pego com o pau da barraca armad. talvez eu devesse tirar uma foto segurando-a assim e colocar no meu perfil do Facebook, meus alunos iriam prestar mais atenção nas aulas.

César soltou uma gargalhada. Isso era muito fácil.

Claro! Vamos providenciar uma, mas, se ficarmos aqui mais um minuto, a cerveja vai esquentar e a comida vai desaparecer na barriga daqueles caras.

César agarrou seu ombro e o arrastou para o interior barulhento da casa. Flanagan não ofereceu resistência, acompanhou o amigo com um sorriso no rosto e outra piada engatilhada, mas guardaria essa para quando estivessem sentados à mesa. Ainda assim a sensação não o abandonou um instante sequer. Era boa pra caralho!

2

É uma pena que você já tenha que ir.

Disse César com o hálito carregado de cerveja, uísque e costelinha de porco. Tudo bem, como seu pai dizia, dava azar não ficar bêbado no próprio aniversário.

Você sabe, ficaria mais, mas ainda tenho um compromisso para hoje.

Olhou para as nuvens carregadas que iam em direção à cidade.

Se cuida! Pelo visto, vai cair o mundo!

Flanagan fez que sim.  

Aproveite, hoje ainda é seu dia Flanagan abriu o guarda-chuva e voltou-se com um sorriso no rosto Há uma garrafa de Jack sob a pia. Não sei quem colocou lá, mas é melhor tirá-la antes que alguém comece a ficar sóbrio.

O amigo respondeu a piscadela com um sorriso. Fechou a porta.

3

Em cima da mesa da cozinha estavam a chave de Elisa com o chaveiro do Darth Vader e uma panela com restos de macarrão instantâneo.

Bom, ela sabe se virar…

A porta do quarto da sobrinha estava fechada. Raramente ficava aberta. Desde que entrara na faculdade, tornara-se um pouco mais reservada. Coisa de adolescente. Flanagan estava a meio caminho do sofá, com uma cerveja na mão, quando ouviu um ruído vindo do quarto da sobrinha, mesmo com o rádio ligado no último volume em algum funk do momento. Não era seu estilo predileto, mas a sobrinha gostava, então estava tudo bem. Seus pais também odiavam ACDC.

Lisa? a música foi a única resposta Elisa?

Flanagan girou a maçaneta e para sua surpresa a porta não estava trancada. A sobrinha estava deitada na cama, apanhada em suor. A camiseta estava levantada. Seu shorts jeans era apenas mais uma peça dispensável ao pé da cama. Ao lado de sua bota, uma calcinha preta com bolinhas amarelas. Joelhos e cotovelos se encontravam. Entre as pernas da sobrinha uma jovem igualmente seminua.

Põe uma meia na porta ou me avisa antes que teremos visita, assim eu coloco mais um prato na mesa.

Elisa abriu os olhos, assustada e branca como um fantasma a amiga rolou para o chão como se estivesse em meio a um tiroteio.

Paa!

Flanagan fechou a porta e voltou para o sofá e sua cerveja. Não estava constrangido, sabia o que os adolescentes faziam às escondidas. Afinal, não dava aula para um bando deles? Porra, não tinha sido ele próprio um?

Um dos piores, por sinal.

4

Água quente, numa temperatura agradável. A banheira estava quase transbordando. Sobre a pia um relógio despertador daqueles que você tem que dar corda, um maço de cigarros Minister e uma garrafa de Teacher’s. Passou a mão na garrafa e num cigarro. Acendeu o primeiro, seguido de um gole.

Ela é como sua filha, pensou. Ela não tem mais uma família… só você…

—  A vida é dura… — soltou uma baforada e bebeu do uísque barato.

O relógio marcava 17h45. Poderia ter ficado mais tempo na casa de César, mas o sorriso de homem de sucesso, aquela casa, a piscina e o quintal, gigantes! A arma… Tudo ali o convencia de que aquele não era seu lugar. Nunca seria.

Bebeu mais um pouco. Às vezes a vida é como uma foda no pior puteiro da cidade. No caso você é a puta. Foda…

Certificou-se de que o despertador estava programado para às vinte horas — um bom horário para dirigir tranquilamente pelas ruas sem se preocupar com o limite de velocidade. Colocou a garrafa no chão e ficou ouvindo o tiquetaquear do relógio, os carros na rua, o sussurro do vento pela janela da varanda, os passos apressados das garotas pelo apartamento. E mais nada.

5

Acordou com o despertador berrando no chão do banheiro. A garrafa de Teacher’s estava vazia, assim como o maço de cigarros. Estava assustado. Ouvia o choro convulsivo de Elisa — ou pelo menos era com o que ele tinha sonhado. Outra vez. Sonhar com a morte do irmão era normal. Acordar com os berros de uma criança, que na verdade era o apito monocórdico do alarme passou a se chamar rotina.

Pela manhã, quando acordava com o coração aos pulos no peito, a primeira coisa que fazia era conferir se tudo estava em ordem. Talvez para se certificar de que ela estava mesmo ali e não no cemitério junto com os pais. Os assassinos que mataram o irmão e sua esposa não tiveram coragem de dar cabo de uma criança de três anos. A vida segue, você sabe, merdas acontecem. Elisa superou bem o trauma, talvez até mesmo melhor do que ele. À época não estava pronto para ser pai. Acreditava que ainda não estava. Deus sabe que ele fizera de tudo por ela, e sabia também que Ivan e Patrícia estariam felizes onde quer que estivessem. Enfim, após quinze anos, tudo deu certo.

Flanagan saiu da banheira, as pontas de seus dedos pareciam como velhos maracujás enrugados. O relógio marcava 20h03. Estava na hora de ir.  Passou as últimas semanas esperando pelo grande dia.

Elisa estava na sala. O vento trazia os aromas de chuva e dióxido de carbono. Ah, a cidade grande! Com um leve rubor nas faces, ela desviou o olhar quando o viu. Fingiu interesse no filme que passava na televisão. A presença invisível e opressora que pairava entre ambos o forçava a ter aquela conversa.  

Não podíamos simplesmente pular essa página e ir direto para o Felizes para Sempre?

Não podiam.

Queria dizer que estava tudo bem, contanto que não fizessem merda. Queria dizer que a menina deveria vir mais vezes, e esse tipo de coisa que um “pai foda” diria, mas não conseguiu.

Tome cuidado… vocês duas, e foi tudo. Não houve resposta, não precisava, Elisa era uma menina inteligente. Vinte minutos depois, com as malas já no carro, ele voava sem rumo pela estrada. Nunca foi bom com despedidas.

6

Seus dedos agarravam com força o volante. Os limpadores do para-brisa abriam e fechavam leques sob a chuva torrencial. Observava o mar. As ondas rugiam com vida própria e quebravam, uma atrás da outra, tocavam a orla da praia com timidez e recuavam. Lágrimas caiam em seu colo. A vida acabou por se tornar completamente insuportável e ele queria fugir, encontrar uma saída o mais rápido possível. Foi por isso que a comprou. A espingarda ao seu lado. Apesar de ser apenas uma arma de chumbinhos, muito diferente da de César, serviria bem ao seu propósito… esperava.

Se atirá em alguém de muito de pertinho, pode até matá. Melhor tomá cuidado e deixá longe das criança! avisou a mulher da loja. Tudo o que ele tinha de fazer era garantir que desse certo. A língua empurrava o cano contra o céu da boca. O indicador acariciava o gatilho. Pensou, não sem um tom de ironia, que sua respiração pesava como chumbo. Estava pronto para acabar com aquele fracasso, mas então aquele mesmo frio subiu sua barriga. A lembrança da arma de verdade lhe deu um pouco mais de tempo. Tempo suficiente para ouvir a música.  

A procissão caminhava penosamente em direção à igreja local, carregando velas, bíblias e uma enorme cruz feita de madeira — tudo protegido por uma centena de guarda-chuvas. Ele acompanhou a caminhada, alheio ao cano da arma na boca.  

Era Sexta-Feira Santa.

Nunca fui cristão, pensou, mas não foi capaz de puxar o gatilho. Sozinho, ouvindo a música dos cristãos misturar-se aos rugidos da besta que se erguia no mar, Flanagan saiu do carro e caiu de joelho no estacionamento. Um Jesus de madeira o encarou com olhos cheios de dor. O messias caído.  Aquele era o momento de expiação por todos os seus pecados. De se converter e pedir o perdão por tudo. Sua única salvação.

Uma garotinha parou para olhá-lo, mas sua mãe a puxou. Quem ali se importava com ele, um desconhecido de roupas estranhas e cabelos desgrenhados, provavelmente bêbado. A ideia de entrar na igreja, onde aquelas centenas de pessoas estariam, e ficar sob o olhar julgador de cada um deles o apavorou mais do que tudo.

Não havia salvação para a ovelha desgarrada. A não ser que…

Um trovão riscou os céus, ziguezagueando entre as nuvens. A procissão estava quase ao fim, podia ouvir os sinos da igreja receberem os primeiros fiéis — mas achava que isso era coisa da sua cabeça. O mar grunhiu, ganhando vida.

Não poderia entrar e pedir perdão ao Cristo de madeira, pois nunca fora batizado!

Bateu a porta do carro, decidido, sem olhar uma última vez para a arma. Caminhou em direção às ondas deixando uma trilha de roupas pela areia.

Alguém dentro de um bar ou lanchonete o teria visto. Um homem seminu, acima do peso, nos seus cinquenta anos, cabelos grisalhos e compridos, caminhando sem se importar com mais nada em direção à escuridão do mar. Talvez tivesse sido apenas uma alucinação, o reflexo das velas dos fiéis. Em poucos instantes não havia mais nada ali para ser visto.

O oceano rugiu.

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