Quinze Minutos

“Todo dia eu só penso em poder parar. Meio dia eu só penso em dizer não.
Depois penso na vida pra levar e me calo com a boca de feijão.”

 

Quinze minutos. É tudo o que eu tenho. Normalmente utilizo esse tempo para ir à loja de conveniência mais próxima comprar um maço de cigarros. Fumo três ou quatro no caminho de volta, acendendo um no outro. Dou os últimos tragos quando passo o cadeado no portão.

Lá dentro, Melissa, Denis e Cintia me esperam para jantar. Um prato na ponta da mesa, um garfo, uma faca, uma cerveja. Quando entrar, cada um em seu lugar, vão me dar boa noite. Darei um beijo em Melissa, que fará uma careta por causa do cheiro de cigarro. As crianças vão perguntar como foi meu dia.

“Cansativo”, direi ao abrir a cerveja. A partir daí vamos conversar sobre o dia de cada um. Cintia reprovou em matemática, mas teve a melhor nota da sala em história. Denis andou trocando socos com um colega de sala. Também está de recuperação. Vamos ligar a tevê quando o assunto morrer. Nosso suporte de conversas. Assistiremos ao jornal, discutiremos as principais notícias do dia: a alta do dólar, política, esportes, algumas tragédias.

Então Melissa vai me contar sobre o dia na escola. Esse ano ela pegou uma turma foda, mas ano que vem será melhor. Ano que vem…

Vamos terminar a refeição, recolherei os pratos. Denis lavará a louça hoje como parte do castigo. Cintia voltará para seu quarto, ela gosta de desenhar. Melissa e eu vamos para a sala. Seus olhos estão vermelhos. Andou chorando.

“É meu pai”, ela vai dizer. Ele foi internado novamente, já é bem velho. Dou-lhe um abraço – apoio moral em um momento difícil. Enxugando as lágrimas nas mangas de sua camiseta desbotada, ela toca no assunto das contas. A luz está cada vez mais cara, teremos de fazer alguns cortes. Aquele passeio em família ficará para o mês que vem.

Temos que segurar as pontas.

Denis se juntará a nós. Vai sentar no outro sofá e mudar de canal. Mas meu sermão já está pronto. Não serei muito duro, mas as crianças às vezes precisam aprender quem é que está no controle. Ele tem apenas treze anos e deve saber qual é o seu lugar na casa. Melissa apoiará cada palavra minha, mas vai deixá-lo jogar algumas horas de video game enquanto eu estiver trabalhando. Diz ela que não podemos ser tão duros com as crianças, elas estão aprendendo. Discordo, mas concordarei.

Tomarei um banho. Sentarei no chão e vou chorar um pouco. Não que minha vida seja um lixo, mas acredito que todo mundo preciso de um momento sozinho para encontrar suas raízes. Se libertar, sabe? Melissa vai estar me esperando na cama. Vamos transar e antes que o relógio marque 23h30, sua respiração ficará pesada.

Costumo encarar as manchas no teto pelas próximas três horas. Quando alugamos essa casa, Denis cutucou o estuque do teto com um cabo de vassoura. O buraco ainda está bem ali. Um olho negro que me faz companhia durante a madrugada. Vazio.

O cheiro de mofo não me incomoda mais. Quando nos mudamos, Cintia teve alguns problemas respiratórios. Hoje ela e Melissa usam aqueles descongestionantes nasais a cada cinco minutos. O volume do frasco de remédio no bolso da calça já faz parte do visual das duas. De vez em quando eu  também uso. Denis é imune, o que é bom.

O dia será uma vitória. Não fui assaltado, não tive nenhuma discussão no metrô, nem em casa com Melissa – salvo pelo sermão no Denis. Tudo ocorreu como tinha de ser. Nada fora da agenda.

Tive uma ideia esses dias enquanto encarava o buraco no teto e as bolhas de infiltração na parede. Parece maluquice, mas poderia dar certo.

Às 5h45 estarei de pé. No portão de casa. A rua ainda está tomada pela neblina a esse horário. Tranquilidade. Fumarei o restante do maço antes de Melissa acordar, às 6 horas. Nuvens de fumaça azulada flutuam ao redor de minha cabeça. Minha névoa particular. Logo serei capaz de ver através das barras de ferro do portão de casa os portões de ferro das casas do outro lado da rua. Gaiolas.

O dia seguinte será igual. E o outro. E o outro. E o…

Apago o último cigarro. Tomo um gole de café requentado e me apronto para o trabalho. Melissa está de pé quando saio do banheiro, já vestido no macacão da companhia. Ela me beija, ergue uma sobrancelha. Afasta o pensamento e diz que vai acordar as crianças.

Meu pai morreu de câncer no pulmão. Ela odeia quando fumo, mas alguns anos atrás tivemos uma discussão feia por conta dos meus gastos excessivos com cigarros. Ela se preocupa que eu tenha o mesmo destino que ele. Eu não. O velho morreu feliz. Queria ter uma morte digna igual. Em uma consulta ao médico, ele disse que minha saúde não poderia estar melhor. Nenhum tumorzinho sequer.

É como dizem: aceita que dói menos.

Vou trabalhar, as crianças estão sentadas à mesa – os olhos inchados pelo sono.

Após o expediente, penso em passar no bar com o pessoal da equipe para tomar umas. “Fica pra próxima”. Assim como foi na semana passada e na outra, e na anterior a essa.

Volto para casa. Melissa já chegou da escola e prepara a janta enquanto as crianças assistem tevê. Denis estará com os olhos grudados em algum desenho. Deixarei passar dessa vez, como deixei da outra… ah, saco… esqueci de comprar o pão e a manteiga para o café da manhã.

“Vou até o mercadinho do posto ver se ele ainda está aberto e comprar essas coisas”, direi à Melissa, que estará mexendo alguma coisa numa grande panela de alumínio no fogão. Volto em quinze minutos

O dono da loja de conveniência do posto de gasolina já me conhece.

“Marlboro vermelho?”, ele pergunta.

“Hoje não”, respondo. Ele ergueu uma sobrancelha, desconfiado. “ pão e manteiga”. Dou-lhe uma nota de dez, recebo um punhado de moedas.

Na volta, o pão e a manteiga numa sacola no assento do passageiro, refiz cada passo mentalmente. Tive uma grande ideia um dias desses. E agora, ao cair da noite, parece que tudo vai dar certo…

***

Quando chego, o dono da loja de conveniência está fechando o caixa. Ele me encara com o olhar de quem desconfia que algo esteja errado, mas uma mancha em meu rosto chama sua atenção.

– Tem algo na sua orelha. Parece… – ele aponta para a minha cara. Passo os dedos, eles ficam vermelhos.

– Tinta.

Ele me lança um último olhar de soslaio e dá de ombros.

– Um maço de Marlboro vermelho?

– Quero um pacote fechado.

Tenho todo o tempo do mundo.

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