Clímax acerta o tema, mas erra na história

Do autor de Clube da LutaClímax é uma boa crítica à misoginia… já a história, nem tanto.

Com a voz calma e inexpressiva, ele disse: — Não morra quando tanto prazer ainda a aguarda…” — MAXWELL, C. Linus

Imagine um brainstorm onde ideias e mais ideias são jogadas na mesa e analisadas nos mínimos detalhes — desde os pontos positivos aos negativos. Nesse cenário, Chuck Palanhiuk é o cara das ideias geniais. Não é para menos, já que estamos falando do autor de Clube da Luta.

O problema? A ideia foi boa, mas faltou a história.

A premissa do último romance de Palahniuk, Clímax, já é bem conhecida. Penny Harrigan é uma advogada em início de carreira que sonha em fazer algo grandioso, assim como suas heroínas feministas (Bella Abzug, Simone de Beauvoir, Susan B. Anthony, Helen Gurley Brown e a fictícia Clarissa Hind — presidente dos Estados Unidos). Porém, sua vida sofre uma reviravolta inesperada quando começa a namorar o megabilionário C. Linus Maxwell, o “Clímax”.

Soou familiar?

Clímax é uma crítica forte àquele tipo de romance 50 Tons de Cinza, onde a história fica em segundo plano. Palahniuk quer nos mostrar uma visão mais ampla sobre homens e mulheres — muito além do mommy porn. Ironicamente, contar uma história não o interessa aqui.

Assim como religião é o alvo da crítica em Sobrevivente e o consumismo é em Clube da Luta, misoginia é a bola da vez.

Se você ainda não leu e não liga para spoilers, a história é basicamente assim:

Penny conhece Maxwell, que está a procura do “espécime” perfeito para testar sua nova linha de produtos eróticos feita sob medida para mulheres, a Beautiful You.

Vamos desbancar um bilhão de maridos.” — Slogan da Beautiful You.

Porém, por trás dessa linha de produtos, Maxwell deseja controlar a mente de todas as mulheres do mundo através do êxtase sexual. Afinal, como o slogan da marca sugere: nenhuma mulher vai querer um homem depois de testar um consolo cujo nome é Êxtase Total Já.

Mesmo que a Beatiful You seja obra de um homem, os “bilhões de maridos desbancados” acabam voltando sua raiva contra uma única mulher quando todas as outras optam pelos vibradores de silicone em formato de libélula — apenas por ter envolvimento no processo de criação dos produtos. Esse é o ponto alto do livro. Mesmo que um homem seja responsável pelo problema, outros homens decidem colocar a culpa na mulher.

Então, com as mulheres trancadas em seus quartos, inserindo tudo que é tipo de apetrecho, os homens ficam perdidos sem ter “alguém para cuidar deles”.

Para derrubar o império de Maxwell (e acabar com a fila quilométrica de mulheres-zumbis, em busca de mais produtos e pilhas), Penny tem que aprender a lidar com seus instintos sexuais mais selvagens. Para isso, ela precisa ir até o Nepal encontrar a mentora sexual (???) de Maxwell, Baba Barba-Branca, uma feiticeira de 207 anos (nessa hora eu fui olhar a nota fiscal pra saber quanto eu tinha gastado nesse livro… Sério).

A grande bola fora de Clímax não são os absurdos em que a história desanda, já que é uma sátira, mas sim a falta de informação e explicação. Tudo acontece pelo fato de que se não acontecer, não tem história. Isso inclui viagens de jatinho ao Nepal, escalar o Evereste sem equipamentos, aprender todos os segredos do sexo em questão de semanas e muitas outras coisas…¯\_(ツ)_/¯ .

Como Sobrevivente Clube da LutaClímax começa pelo clímax (perdoe o trocadilho), e então volta a narrativa alguns meses ou anos. Mas então, até chegarmos ao tal clímax novamente, toda empolgação inicial perdeu-se entre as longas e cansativas descrições do prazer tântrico incrível e ‘blábláblá’.

Se a equipe da sala de brainstorm tivesse dado menos corda ao cara das ideias geniais, Clímax seria um bom livro de 120 páginas. Não 215.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s