O jogo do despertador

Você costumava acordar de manhã com aquela  que era a sua música favorita, mas que agora soaria como algo desgastado e inacreditavelmente irritante. Você se arrepende disso e adota o monocórdico “beep beep beep”.

Só mais cinco minutinhos…

Beep beep beep!

Mais cinco só…

Beep beep beep!

Só mais cin…

BEEP BEEP!

– Porra!

Você está atrasado.

No começo, o despertador bastava para te acordar. Depois o chuveiro. O banho despertava os seus músculos sonolentos e te dava um novo ânimo para começar o dia. Depois disso veio o café preto bem quente. Forte. Extra forte! Então seu despertador passa a ser o calor humano no interior entupido do ônibus aos trancos e barrancos. A cada parada, uma pessoa desce, cinco entram, e a dança de pés se torna cada vez mais complexa. Não fôssemos brasileiros, certamente seria confundida com uma apresentação da dança dos Cossacos – sem a elegância e a vodka no sangue, claro.

Que despertador!

É nesses momentos, quando você se encontra encurralado entre a senhora de bolsa de zebrinha com fecho magnético e o rapaz de rosto liso vestindo um terno grande demais, que só pode ser um empréstimo do primo mais velho – provavelmente é a primeira entrevista do garoto – que você se pega pensando na vida.

E o tempo passa…

Tic… tac… tic…

Será que algum dia o amor da minha vida vai pegar essa linha? Vai entrar pela porta dianteira sobre uma nuvem de fumaça – daquelas feitas com gelo seco – ao som de It’s not unusual.

Ei! Não é o Tom Jones no banco do motorista?!

Beep beep beep!

Sonhando mais uma vez. O jogo do despertador te venceu mais uma vez.

Você chega ao trabalho. Aqui a dificuldade aumenta.

Você está sob os olhos perscrutadores de falcão do seu chefe. Você está sobre a corda bamba, lá embaixo, o fim do jogo. Sem vida extra, meu bem.

– Você terminou o que eu te pedi?

O que ele disse? Puxa! Quem diria? A essa altura do campeonato e você acaba de encontrar um novo despertador.

Você está voltando para casa. Reconhece de imediato mais da metade dos rostos que vê e percebe (e eles também!) que estão todos jogando o mesmo jogo, na mesma fase. Todos esperando pelo próximo…

Seu ônibus chega. Algumas trocas de olhares na hora de escolher o assento e então as ruas de piche deslizam sobre os pneus queimados. Você sente o cheiro e procura, alarmado, o fogo. E aí você vê o túnel, um túnel muito escuro e profundo. O ônibus desce, desce, desce… e desce mais um pouco.

O diabo te espera no ponto final, um tridente numa mão e o lago de fogo da eterna perdição na outra. Com os dentes arreganhados ele te chama, mas não pelo nome.

O que ele disse?

– Vai descer! – Você grita e aperta a campainha que também grita. – Aquele era o meu ponto… não… esquece… é o próximo ainda…

Não é preciso nem dizer, você já sabe.

Há apenas um ou dois rostos conhecidos quando você desce. Ambos derrotados na reta final.

Você chega em casa e deita em sua cama. Deus! Eu venci, você pensa. Os olhos ardem e o corpo está exausto, mas a sensação é boa, reconfortante. Você pisca os olhos e vê as escadas do paraíso diante de si. Tom Jones está no primeiro degrau e ele lhe estende a mão.

Você dá o primeiro passo em direção ao descanso merecido e… adivinha?

BEEP BEEP BEEEP!

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